quarta-feira, 6 de maio de 2015

Conversando sobre a Morte!

“A morte não vem de fora, mas se processa dentro da vida com a perda progressiva da força vital. Morremos um pouco a cada minuto e um dia este processo chegará ao fim”. (L. Boff)

A sociedade moderna possui novos tabus e dentre eles está a morte. Hoje os pais conversam com seus filhos sobre drogas e métodos contraceptivos, porém na minha prática clínica/hospitalar tenho observado que pais e filhos não conversam sobre a morte. A família muitas vezes desconhece como aquele ente querido gostaria de morrer, o que ele gostaria de fazer em caso de uma doença crônica sem possibilidade de cura ou uma morte súbita. Quando algum membro da família começa a falar sobre este tema alguém automaticamente diz – para com isso, que assunto mais chato, tanta coisa boa para conversar e você quer falar de morte, que bobagem –. Infelizmente, o tema da morte se tornou interdito no século XX, sendo banido da comunicação entre as pessoas. (Ariès, 1977).

A morte praticamente tornou-se uma inimiga que precisa ser combatida e silenciada a qualquer custo. O aumento da expectativa de vida e os avanços na medicina nos fazem crer que sempre teremos recursos para postergar a morte. Parece que existe uma convenção social que nos impede de falar sobre o tema, por isso as pessoas não estão preparadas para enfrentar a finitude dos entes queridos e tampouco a sua própria finitude. Vivemos ignorando a existência da morte e agimos como se ela fosse algo improvável. Negar a morte é não querer entrar em contato com as experiências que nos causam sofrimento, permitindo, assim, segundo Kovács (2002), fantasiar a ilusão da imortalidade, dando a ideia de força e de controle sobre o medo da morte.

No entanto, a morte faz parte do desenvolvimento humano. Em algum momento de nossa existência iremos partir em definitivo. Então, precisamos contar para as pessoas como queremos vivenciar este dia único. Dialogar sobre a morte é importante porque este tema possui uma magnitude de significados que, ao se desvelar, pode tornar sua aceitação mais fácil. Eu penso que deveríamos ter uma outra cultura sobre a morte. Uma cultura de diálogo nos permitiria ter menos raiva diante desse processo, seja nosso ou do outro. Dizer para os familiares o que gostaríamos que fosse feito na hora da nossa morte e falar do que acreditamos que vai acontecer conosco depois da partida pode nos auxiliar a desmistificar o “fantasma” chamado morte.


Observo que é na hora da morte que as pessoas tomam consciência das coisas que ficaram inacabadas ou malfeitas, que precisamos dar um fechamento a algumas situações e/ou assuntos e que, muitas vezes, precisamos perdoar alguém ou perdoar a nós mesmos. Quando acompanhamos alguém em processo de morte é importante que esta pessoa possa falar e trazer à tona tudo que está pela metade, tudo que a está angustiando, as incertezas, os medos e, claro, as boas lembranças. Contudo, isto só poderá ocorrer quando a família começar a falar sem reservas sobre a morte. Acredite esta conversa pode ser fascinante.

Penso que seria interessante se pudéssemos conversar com nossos familiares e explicar a eles como queremos morrer, o que queremos neste dia único e sublime, para quem queremos deixar nossos pertences mais íntimos e nossa herança, se queremos ser enterrados ou cremados, se cremados, onde gostaríamos que jogassem nossas cinzas, se queremos que nossos órgãos sejam doados ou não, quais pessoas queremos nos nossos rituais fúnebres. Como pudemos observar, são muitas as questões a serem pensadas e faladas. Então, não deixe tudo literalmente para o último minuto, pois pode não dar tempo.

A morte é um tema que nos convida à reflexão sobre a vida e sobre o que temos feito com ela. É importante dialogar e refletir sobre a morte e o morrer pois por sermos seres mortais é que podemos compreender o verdadeiro significado da vida.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto

Referências:
Ariès P. A História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
Lima JL. Morte e Morrer A importância do estudo da morte para os profissionais de enfermagem. Arquivos da UFF.
Kovács MJ. Educação para a Morte: um Desafio na Formação de Profissionais de Saúde e Educação. São Paulo, 2002. Tese de Livre-Docência. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
Kovács MJ. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Luto Complicado

"São só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida" (Milton Nascimento)
 
Existem situações em que o processo de luto, principalmente por morte de um ente querido, não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Num processo de luto complicado há uma dificuldade extrema em aceitar a perda. Nestas circunstâncias, o luto permanece não resolvido ao longo do tempo, durante vários anos, e, por vezes, para o resto da vida, interferindo no estado emocional da pessoa e impactando significativamente a sua vida. Este se caracteriza por uma melancolia duradoura, acompanhada em geral de profunda tristeza, problemas de saúde, distúrbios psíquicos e diminuição dos contatos sociais.

Segundo Horowitz, o luto complicado é a intensificação do luto até o ponto em que a pessoa se sente sobrecarregada, recorre a um comportamento mal adaptado ou permanece interminavelmente num estado de luto, sem progressão do processo em direção a seu término.
Podemos pensar que a diferença entre as reações emocionais e comportamentais de um processo de luto normal e as de luto complicado não se diferenciam pelo modo como aparecem e sim pela sua duração e intensidade.




O diagnóstico de luto complicado não é tarefa fácil, mas alguns fatores podem nos auxiliar a identificar que a pessoa está vivenciando este processo. Por exemplo: foco extremo na perda e lembranças da pessoa morta; intenso desejo ou anseio de encontrar a pessoa; dificuldade para aceitar a morte; dificuldade para realizar coisas do cotidiano; estado de humor permanentemente alterado; comportamento antissocial; ideação suicida e comportamentos autodestrutivos; sentimento que a vida não tem qualquer significado ou propósito. Esta sintomatologia também pode ocorrer num processo de luto normal, no entanto, no luto complicado estes sintomas não mostram sinais de evolução e/ou melhora ao longo do tempo.

Alguns fatores podem contribuir para o risco de uma pessoa caminhar para o luto complicado, tais como: uma morte inesperada e/ou violenta; morte por suicídio de um ente amado; falta de suporte social – familiares e amigos; experiências traumáticas na infância; ansiedade de separação na infância; não aceitar a morte como um processo natural; dificuldade de adaptação a mudanças de vida.

O luto complicado pode levar a depressão maior, mas não significa que são a mesma coisa, suas características diagnósticas podem ser diferenciadas por critérios do DSM, ajudando a realização de um diagnóstico correto. (Zisook; Shear, 2009).

Contudo, em recente aula no St Christopher's Hospice, o Prof. Parkes nos alertou sobre a importância de discutirmos esta diferenciação para que não haja erro de diagnóstico. Segundo ele, Complicated bereavement is complicated (Luto complicado é complicado).

Não temos como prevenir o luto complicado, mas as pessoas que apresentam maior risco de desenvolvê-lo devem ser orientadas a buscar ajuda terapêutica, para dissolver as crenças negativas sobre a perda, falar sobre a dor e a angústia que se está vivenciando e permitir-se chorar.

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto


Referências:
Horowitz MJ. Pathological grief and the activation of latent self images. American Journal of Psychiatry; 1980.
Parkes CM. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Tradução: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.
Parkes CM. Complicates Grief in the DSM5. Aula no St Christopher's Hospice; 2014.
Zisook S; Shear K. Grief and bereavement: what psychiatrists need to know.World Psychiatry; 2009.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O Processo de Luto!

“As pessoas farão de tudo, chegando ao limite do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Mas, ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim ao se conscientizar da escuridão” (C. G. Jung)

O Luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante do rompimento de um vínculo. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar.  Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.

Ao contrário do que muitos pensam, o processo de luto pode ocorrer por: Morte de um ser humano, Morte de um animal de estimação, por Separação conjugal, por Aposentadoria, por Demissão do trabalho, por Imigração, por Envelhecimento, por Doença, e por vários outros tipos de rompimento.

Reações à perda de algo significativo, muitas vezes, incluem impedimento e/ou desinteresse temporário na realização das atividades diárias do cotidiano, isolamento social, pensamentos intrusivos e sentimentos de saudade e tristeza, que variam e evoluem ao longo do tempo. Em alguns casos pode culminar num estado de depressão. O traço mais característico no processo de luto são episódios agudos de dor, com muita ansiedade e dor psíquica.

Num processo de luto podemos ou não vivenciar algumas fases, a saber: A Negação e/ou Entorpecimento, A Raiva/Protesto, O Desespero, A Depressão e, por fim, a Aceitação que culmina com a Elaboração. Porém, estas fases não necessariamente seguem esta ordem. A aceitação só se dá a partir de um longo processo e ela não significa esquecer, disfarçar que nada ocorreu ou ainda não sentir dor quando lembrar. Na aceitação o sofrimento psíquico e/ou emocional passa a ser menos intenso, e o indivíduo enlutado passa, geralmente, a restaurar laços sociais, recuperando vínculos antigos e estabelecendo novas relações. Quando a elaboração acontece, morremos para a condição de termos dores e renascemos para a condição de sermos com as dores.



Apesar do luto ser um processo universal, cada indivíduo possui uma forma particular de reagir. Este processo varia de acordo com a faixa etária em que o indivíduo se encontra, o tipo de vinculação existente e as causas e circunstâncias da perda. Varia também de acordo com sua estrutura emocional, vivências e capacidade para lidar com perdas. É fundamental que esse processo de enlutamento seja vivenciado até que ele seja elaborado, para que a dor da perda não fique reprimida. Tal processo se dá de forma lenta e gradual, com duração variável para cada pessoa.

Quanto à duração do processo, não existe uma resposta conclusiva. O processo de luto é vivenciado pelas pessoas de forma individual e subjetiva, o que torna inadequado estipular um prazo para seu término. Segundo Worden, no entanto, quando se perde uma relação próxima é muito improvável levar menos de um ano e, para muitos casos, pode levar dois anos ou até mais.

Contudo, existem situações em que o processo de luto não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Nestas circunstâncias, o luto permanece não resolvido ao longo do tempo, durante vários anos, e, por vezes, para o resto da vida, interferindo no estado emocional da pessoa e impactando significativamente a sua vida. Nestes casos, em que há o prolongamento do luto, o denominamos de Luto Complicado. Este se caracteriza por uma melancolia duradoura, acompanhada em geral de profunda tristeza, problemas de saúde, distúrbios psíquicos e diminuição dos contatos sociais, o que exige processos de readaptação com a ajuda de profissionais habilitados.

A psicoterapia poderá auxiliar o indivíduo no enfrentamento desse processo, na medida em que é um espaço no qual o paciente pode expressar a sua dor, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento de mecanismos internos que permitem superar as fixações ou bloqueios, com vista à aceitação da perda e a um reposicionamento no mundo real. (Parkes, 1998).

Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto

Referências:
Parkes CM. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Tradução: Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus; 1998. 291 p.
Ross, A. Counselling a Practical Guide (London: Icon Books Ltd.); 2013.
Worden, J. Grief Counseling and Grief Therapy. A Handbook for the Mental Health Practitioner (2nd ed.). London: Routledge.; 1991.
“O encontro de Prometeu, Héracles e Quiron – A morte e o morrer: ritos de passagem” (Revista Junguiana v. 29/1, p. 59)